Biomassa no Brasil e segurança energética: tendências e o futuro das usinas sucroenergéticas

Saiba como a biomassa no Brasil está se consolidando como solução para segurança energética e quais são as perspectivas para usinas sucroenergéticas.

Biomassa no Brasil e segurança energética: tendências e o futuro das usinas sucroenergéticas
Auren Energia
Publicado por: Auren Energia
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O VIII Encontro Auren de Biomassa, realizado em março em Ribeirão Preto (SP), reuniu especialistas do setor sucroenergético, do mercado de energia e do agronegócio para debater um novo cenário: em um sistema elétrico brasileiro que se transformou rapidamente, a biomassa no Brasil deixou de ser uma fonte complementar e passou a ocupar uma posição estratégica.

O evento, que em 2026 chegou à sua oitava edição, teve como convidados Luiz Barroso, CEO da PSR, consultoria referência em estudos e modelagem do setor elétrico; Marcos Fava Neves, professor da USP e especialista em planejamento estratégico no agronegócio; e, pela Auren, João Guillaumon, VP de Clientes e Comercialização, e Eduardo Diniz, diretor de Comercialização de Energia.

Por que a biomassa voltou ao centro da discussão energética?

A expansão acelerada das fontes solar e eólica trouxe redução relevante de custos para a matriz elétrica brasileira, mas veio acompanhada de um desafio inédito para o operador do sistema: administrar o excesso de oferta em determinados momentos do dia e o déficit em outros, com pouca margem de manobra.

O Dia dos Pais de 2025 ilustrou esse dilema, segundo análise de Luiz Barroso no encontro: irradiação solar máxima, geração eólica elevada e demanda reduzida por se tratar de uma data comemorativa levaram o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) ao limite de suas alternativas de corte sem comprometer a estabilidade do sistema.

É nesse contexto que a biomassa assume um papel estratégico. Diferentemente das fontes intermitentes, ela oferece geração previsível, despacho controlável e capacidade de resposta nos momentos em que o sistema mais necessita de estabilidade, explica Barroso. Ele destacou que, na prática, a biomassa passa a exercer a função de regulação que, historicamente, era desempenhada pelas hidrelétricas antes da expansão das renováveis.

Ao longo do encontro, essa característica apareceu como um dos principais diferenciais da fonte no novo contexto do setor elétrico, em que flexibilidade e confiabilidade passam a ser atributos centrais.

A participação de fontes intermitentes, que representava 36% da geração, deverá alcançar 57% nos próximos anos. A diferença entre o pico de geração solar ao meio-dia e a demanda das 19h já ultrapassa 30 gigawatts e deve se aproximar de 40 gigawatts em cinco anos, segundo análise da PSR apresentada no encontro.

Como resume Barroso:

"O crescimento da geração solar, somado às demais fontes renováveis e às mudanças físicas do sistema, está transformando profundamente o mercado de energia, em uma dinâmica completamente diferente do que se observava cinco ou seis anos atrás"

Com isso, o desafio do sistema muda de natureza: o problema central deixou de ser a disponibilidade de energia e passou a ser o seu controle, entendido como a capacidade de equilibrar geração e demanda ao longo do dia, reduzindo desperdícios e garantindo estabilidade ao sistema.

"O valor da biomassa está, em grande medida, na flexibilidade intradiária e na confiabilidade para manter o reservatório com nível adequado. A integração com soluções de armazenamento agrícola tem potencial de ampliar ainda mais esse valor no médio prazo."

Luiz Barroso, CEO da PSR no VIII Encontro Auren de Biomassa

Brasil em posição privilegiada na transição energética

O professor Marcos Fava Neves, da Universidade de São Paulo (USP), trouxe o olhar do agronegócio global para contextualizar a posição estratégica do Brasil. Em sua análise, o cenário internacional, marcado por conflitos geopolíticos, volatilidade de insumos e pressão sobre combustíveis importados, reposiciona países com geração local renovável no mapa energético mundial.

Segundo o professor, com base em dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil já apresenta uma vantagem estrutural relevante: cerca de 50% da sua matriz energética é composta por fontes renováveis, ante 18% da média global. Na matriz elétrica, esse percentual chega a 89%, o maior entre os países do G20. Além disso, as energias renováveis com origem no agro representam 33,3% da matriz, incluindo biomassa de cana-de-açúcar, lenha, carvão vegetal, licor negro e outras fontes.

As projeções para o setor sucroenergético reforçam esse protagonismo: crescimento de 9 milhões de toneladas na produção de cana nos próximos dez anos e aumento da participação brasileira nas exportações globais de açúcar de 52% para 58% até 2034/35, segundo dados da FAO e USDA apresentados pelo professor Marcos Fava, também conhecido como Dr. Agro.

"O Brasil reúne um conjunto singular de tecnologias limpas, com integração entre lavoura, pecuária e floresta. O etanol se destaca pelas perspectivas de expansão do consumo, tanto no maquinário agrícola quanto na geração termelétrica e no transporte, e segue concentrando o maior potencial de crescimento de dois dígitos."

Marcos Fava Neves, professor da USP, no VIII Encontro Auren de Biomassa

A segurança energética passa a ser um diferencial competitivo relevante. Fontes como vento, sol e biomassa têm uma vantagem estrutural importante: estão disponíveis localmente e não dependem de dinâmicas geopolíticas externas, o que aumenta a resiliência dos sistemas energéticos. Na avaliação de Luiz Barroso, esse movimento vem sendo progressivamente precificado pelos mercados, à medida que a eletrificação baseada em renováveis passa a ser vista como uma estratégia de diversificação frente à instabilidade no abastecimento de combustíveis importados.

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