O cenário meteorológico está entre os fatores que influenciam o custo de energia. As condições climáticas impactam diretamente na formação dos preços e são um fator de atenção nas decisões sobre contratação de energia pelos consumidores do mercado livre.
Mas como isso acontece na prática? E quais as previsões meteorológicas para o início de 2026, e seus possíveis impactos no preço da energia? Entenda abaixo:
Como o clima impacta os preços de energia
O clima tem influência direta no comportamento dos preços de energia ao longo do ano. Quando o volume de água que chega aos reservatórios das hidrelétricas é alto, a oferta de energia barata tende a aumentar, provocando uma redução no PLD (Preço de Liquidação das Diferenças). Vale lembrar que grande parte da eletricidade gerada no Brasil vem de usinas hidrelétricas.
Quando há falta de chuvas, aumenta a necessidade de acionar usinas térmicas, que costumam ter custos mais altos, refletido no preço final da energia pago pelos consumidores. Nas contas de luz residenciais, por exemplo, são aplicadas as chamadas bandeiras tarifárias, que aumentam a tarifa cobrada no mercado cativo.
Durante o período seco do ano — geralmente entre maio e setembro, com baixa incidência de chuvas, temperaturas mais amenas e menor umidade —, é natural que os preços de energia sejam pressionados para cima.
Já no período úmido — que, na maior parte do país, inicia em outubro — o aumento das chuvas favorece a recomposição dos reservatórios, o que pode trazer uma redução nos custos.
Além de afetarem o custo de energia, as variações meteorológicas ainda podem trazer mudanças no perfil de consumo.
A predominância de temperaturas mais amenas ao longo de 2025, por exemplo, resultou na queda no consumo de energia na maioria dos segmentos, com exceção do residencial. “Em 2025, o segmento industrial mostrou, por vários meses consecutivos, uma queda no consumo em comparação ao ano anterior”, avalia Bruno Maon, analista de Planejamento Energético da Auren.
No Brasil, as hidrelétricas são responsáveis por mais da metade da capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional (SIN), sendo, portanto, a principal fonte de eletricidade. Em condições normais, a chegada do período úmido, entre outubro e março, tende a melhorar as perspectivas dos preços de energia.
No entanto, esse cenário favorável também depende de outros aspectos, como a regularidade das precipitações e o ritmo de consumo de energia. Se as chuvas forem irregulares ou a demanda subir inesperadamente, os preços podem sofrer pressão, mesmo no período úmido.
De acordo com Bruno Maon, em 2025, mesmo com menos chuvas do que o normal nos últimos dois anos, os reservatórios de água seguiram em níveis confortáveis.
"Ainda assim, os reservatórios permaneceram em níveis confortáveis, principalmente devido às temperaturas mais amenas, que reduziram a carga e a evapotranspiração, e aos parâmetros de maior aversão ao risco, que aumentaram estruturalmente os reservatórios."
Bruno Maon
Previsões para 2026
Para 2026, um dos pontos que merecem atenção é o comportamento do Oceano Pacífico Equatorial e os fenômenos La Niña e El Niño. Desde o fim de 2025, o oceano tem apresentado anomalias negativas, com temperaturas mais baixas na superfície do mar. Esse cenário é conhecido como La Niña, que deve permanecer até janeiro de 2026, com expectativa de retorno à neutralidade.
Maon fala que, para janeiro, a previsão é de volumes de chuva abaixo da média no Sudeste e no Centro-Oeste, onde estão localizadas importantes hidrelétricas. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que os reservatórios dessas regiões respondem por cerca de 70% da capacidade de armazenamento de água do país.
Além disso, a previsão indica maior atuação de um sistema de alta pressão — que bloqueia massas de ar úmido —, o que pode reduzir a qualidade da chuva e resultar em calor intenso.
"Com relação ao vento, a previsão indica um favorecimento ao longo de janeiro, especialmente no Nordeste, impulsionando a geração eólica."
Bruno Maon
Existe ainda a possibilidade de transição para um El Niño no segundo semestre de 2026. Esse fenômeno, caracterizado pelo aquecimento persistente das águas do Pacífico Equatorial, costuma intensificar as chuvas no Sul e contribuir para períodos de seca no Nordeste. Ele é benéfico para o abastecimento de hidrelétricas, mas aumenta os riscos de inundações.
Carga de energia: como ficou em 2025 e qual a projeção para 2026?
Em relação à carga de energia do sistema como um todo, de janeiro até dezembro de 2025, houve um crescimento total de 1,7%, segundo Maon.
"Isso é inferior ao que se esperava na projeção, realizada em dezembro de 2024, quando a expectativa era de uma carga bem maior para 2025. Ou seja, a carga frustrou."
Bruno Maon
No fim de 2024, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgaram projeções que indicavam um crescimento de 3,5% da carga de energia em 2025.
Para 2026, a estimativa é de um avanço de 4,6% frente a 2025, atingindo o patamar de 85.067 MW.