Dupla contabilização de energia: entenda o modelo híbrido da CP 218 e seus impactos

Entenda a dupla contabilização proposta na CP 218. Saiba como a combinação de preços ex-ante e ex-post vai mudar a operação de gestoras e geradores.

Dupla contabilização de energia: entenda o modelo híbrido da CP 218 e seus impactos
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Publicado por: Auren Energia
9 min. de leitura

O mercado de energia elétrica brasileiro opera há décadas com um modelo em que o operador do sistema centraliza as decisões de despacho: quem gera, quanto gera e a que custo. A proposta da CP 218 quer mudar uma parte relevante dessa lógica.

Este artigo traduz o debate técnico da segunda Live Auren Tendências de 2026, que contou com Francine Pisni, gerente-executiva de Assuntos Regulatórios da Auren, e Ângela Oliveira, diretora de Relações Institucionais da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia), em um guia prático sobre os impactos da nova regulação para gestoras, comercializadoras e consumidores. Além delas, participaram também Eduardo Diniz, diretor de comercialização de energia da Auren e Bruno Noronha, gerente-executivo de Planejamento Energético da Auren.

Preço por custo x preço por oferta: o que muda na lógica de formação de preço

Como funciona o modelo atual:

Hoje, o Brasil opera com um sistema de preço por custo. O Operador Nacional do Sistema (ONS) coleta os dados de todos os geradores e sistema, roda modelos computacionais de otimização que realizam um planejamento de quem vai gerar, quanto e quando, em diferentes horizontes de tempo, em uma metodologia que minimiza o custo de operação. O preço da energia, também chamado de PLD, sigla que significa “Preço de Liquidação das Diferenças”, também resulta desse processo.

No modelo de preço por oferta, a lógica funciona de forma diferente. Os próprios geradores submetem ao operador não apenas seus custos, mas também a quantidade de energia que declaram estar disponível para gerar. Essa informação entra no modelo, influencia a formação do preço e cria um vínculo direto entre o que o gerador declara e o que o mercado paga.

"Quando a gente fala de preço por oferta, a gente está falando do agente participar mais ativamente desse mercado. O gerador declara quanto acredita que vai gerar e a que custo. Com isso, eu consigo otimizar a minha gestão, considerando o meu recurso real, as minhas manutenções, as minhas particularidades"

explicou Francine Pisni

O argumento central dos defensores dessa mudança é aproximar o que o modelo matemático de otimização projeta da operação real, uma das discussões recorrentes no setor, dado que o comportamento efetivo das usinas nem sempre coincide com o que os modelos projetam.

O que é o modelo híbrido proposto na CP 218

A Consulta Pública 218, aberta pelo Ministério de Minas e Energia, não propõe a migração imediata para o preço por oferta pleno. O que está em discussão é um modelo híbrido, que sugere um passo intermediário que introduz elementos da lógica de oferta sem abandonar a estrutura atual de uma vez.

Nesse modelo, os geradores passam a submeter ofertas de quantidade, não de preço. Em vez de o modelo assumir sozinho quanto cada usina vai gerar, o próprio gerador informa essa projeção. Essa oferta entra no modelo de formação de preço, gerando um PLD calculado antes da operação acontecer (“ex-ante”), com base nessas declarações.

Depois que a operação ocorre, o que foi efetivamente gerado é medido e comparado com o que foi ofertado. Considerando isto, a condição real do sistema entra no modelo de formação de preços novamente, gerando um novo PLD (“ex-post”). A diferença, positiva ou negativa em montantes de energia, é calculada sobre este novo PLD, apurado ex-post. É aí que entra a “dupla contabilização”: o gerador recebe pela quantidade que ofertou ao preço ex-ante e acerta o desvio ao preço ex-post.

"Eu faço uma oferta de quantidade, essa oferta vai para o modelo e isso me gera um preço ex-ante. Depois, eu tenho o que de fato aconteceu na operação. A diferença entre o que eu ofertei e o que eu gerei é calculada sobre esse novo preço. Isso traz uma responsabilidade muito maior para quem está ofertando"

detalhou Pisni.

Dupla Contabilização

Impacto da implementação da dupla contabilização para os agentes setoriais


Geradores despachados centralizadamente

Os impactos decorrem principalmente da valoração econômica específica dos desvios operativos, o que pode alterar a distribuição de custos associados a redespachos e diferenças entre programação e operação real.


Geradores não despachados centralizadamente

Altera os incentivos associados à acurácia de previsões e à gestão de risco de balanço.


Comercializadores

Alterações tendem a modificar a dinâmica de exposição ao mercado de curto prazo, com possíveis reflexos sobre estratégias de hedge, gestão de portfólio e dimensionamento de garantias financeiras.


Consumidores

Há a expectativa de redução de encargos associados ao desbalanço entre operação ex-ante e realidade verificada.

Na lógica da proposta, o mecanismo de desvio cria incentivo para que os geradores melhorem a precisão das suas previsões de geração, já que errar na oferta passa a ter custo financeiro direto.

Quais geradores entram na dupla contabilização e quais não

A proposta da CP 218 não abrange todos os geradores. O foco está nas usinas que hoje não são simuladas individualmente nos modelos de despacho do ONS. Na prática, principalmente as fontes renováveis intermitentes: eólicas e solares.

Essas usinas não têm despacho programado de forma individualizada pelo modelo; sua geração depende do vento e do sol. Para elas, a introdução de ofertas de quantidade representa uma mudança relevante na forma como participam do mercado.

As usinas despachadas centralizadamente — hidrelétricas e termelétricas, por exemplo — seguem em outro regime. A dupla contabilização, ao menos nessa fase inicial, não se aplica a esses agentes da mesma forma.

O que muda para cada agente do mercado

Para geradores de fontes renováveis

A mudança mais direta recai sobre eólicas e solares. Com a dupla contabilização, o desvio entre o que foi ofertado e o que foi efetivamente gerado passa a ser liquidado ao preço ex-post, que pode ser maior ou menor do que o preço ex-ante utilizado na contabilização da oferta. Dependendo do sentido do desvio e do comportamento dos preços, o impacto financeiro pode ser significativo.

Segundo a lógica da proposta, isso tende a aumentar o interesse dos geradores em melhorar a precisão das suas previsões de geração, o que pode impulsionar investimentos em dados e tecnologia nesse segmento.

Para gestoras de energia

Gestoras que prestam assessoria a geradores também estão no escopo da mudança.

"As gestoras vão poder participar da discussão, participar das declarações dos geradores. Isso ajuda na previsibilidade do preço a partir de quando a gente consiga melhorar pelo menos a previsão de geração"

apontou Eduardo Diniz, diretor de Comercialização de Energia da Auren.

Na avaliação dos especialistas, a dupla contabilização pode abrir espaço para novos serviços de apoio à declaração de geração, como: análise de dados, modelos de previsão, gestão de exposição ao desvio. É uma dimensão ainda em formação, que vai depender de como o mercado se organizar após a regulamentação.

Para comercializadoras

Para quem faz gestão de portfólio, a introdução de dois preços — ex-ante e ex-post — e um mecanismo de desvio altera a dinâmica de exposição ao mercado de curto prazo.

"Para os comercializadores, é de grande importância a alteração dessa dinâmica de exposição ao mercado de curto prazo. Como vão ficar as questões de estratégia de hedge, gestão de portfólio e dimensionamento das garantias financeiras?"

pontuou Pisni, indicando que as estratégias atuais precisarão ser revisadas à medida que o modelo avança.

Para consumidores

O impacto sobre consumidores é mais indireto. Na visão apresentada durante a live, a dupla contabilização, ao aproximar a operação real do modelo de preço, tende a reduzir os encargos de serviço de sistema, que são aqueles custos associados ao despacho de usinas fora da ordem de mérito para cobrir desvios de geração não previstos.

"Quando a oferta é mais realista, eu consigo me programar melhor, ter um despacho termelétrico menor, uma geração fora da ordem de mérito menor. Os encargos tendem a diminuir"

explicou Francine Pisni.

A intensidade desse efeito, porém, depende de como o mecanismo vai funcionar na prática, algo que só o período de testes poderá indicar com mais clareza.

O que a Abraceel e o mercado pedem: período de testes ampliado

A proposta da CP 218 prevê um período de testes de 6 meses antes da implementação definitiva. Para a Abraceel e parte dos agentes do setor, esse prazo é insuficiente.

A associação apresentou contribuição pedindo a ampliação para pelo menos 12 meses — o equivalente a um ciclo hidrológico completo, com período úmido e seco. A justificativa: seis meses podem não capturar a variabilidade sazonal do sistema, o que comprometeria a avaliação dos resultados antes da implementação definitiva.

"A gente está propondo uma ampliação do período de testes para considerar um ciclo hidrológico completo. E depois avaliar os benefícios e impactos antes da implementação definitiva"

afirmou Ângela Oliveira

A Abraceel também defende que a regulamentação do mecanismo preceda a implementação, para que todos os agentes tenham clareza sobre as regras antes de entrar no novo modelo.

O que monitorar daqui para frente

A dupla contabilização ainda está em fase de consulta pública. Alguns pontos concentram a atenção do mercado nos próximos meses:

Resultado da CP 218: o Ministério vai consolidar as contribuições recebidas e definir os próximos passos. As posições da Abraceel e de outros agentes sobre o período de testes e os critérios de regulamentação vão compor esse debate.

Definição de quais geradores participam: a proposta atual foca em eólicas e solares, mas o escopo exato ainda pode ser ajustado. Para gestoras que atendem esses geradores, esse é o dado mais relevante a acompanhar.

Período de testes: quando o mecanismo entrar em vigor, os dados gerados durante o período experimental vão ser o principal insumo para calibrar os ajustes antes da implementação definitiva.

Conexão com outros temas regulatórios: a dupla contabilização não está isolada. Ela se conecta com a discussão sobre os parâmetros do CVaR (o modelo de aversão a risco usado para calcular o PLD), com a regulamentação do Curtailment (cortes de geração), com a entrada do LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade) no modelo de formação de preços e com a regulamentação das baterias como fonte de armazenamento no sistema elétrico. São debates que correm em paralelo e que, em conjunto, têm potencial de alterar a dinâmica de formação de preço no Brasil nos próximos anos.

A Auren acompanha esses movimentos e continuará trazendo análises nas próximas edições da Live Auren Tendências.

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